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Erros foram cometidos (mas juro que não fui eu)
Vida & Lucros | Edição #099

Esta semana, li um artigo na coluna do Reinaldo José Lopes na Folha de S.Paulo, intitulado “Livro explica como seres humanos se tornam mestres do autoengano”.
A coluna fala sobre o livro Erros Foram Cometidos (Mas Juro Que Não Fui Eu), dos autores Elliot Aronson e Carol Tavris.
Ainda não li o livro, mas a resenha me deixou pensativo.
Logo no começo, o autor destaca a construção da linguagem que dá nome ao livro: “erros foram cometidos”.
Perceba como essa frase reconhece que algo deu errado, mas não revela quem foi o responsável.
O erro surge como algo que simplesmente aconteceu, sem sujeito, decisão ou escolha.
O próprio Reinaldo comenta que essa estrutura não é apenas uma manobra típica da política ou das empresas.
Ela mostra um impulso humano difícil de controlar.
O artigo diz que o livro aborda a dissonância cognitiva, um conceito criado por Leon Festinger.
Quando fatos entram em choque com o que acreditamos, sobretudo com a imagem que temos de nós mesmos, surge uma tensão interna.
A forma mais comum de aliviar essa tensão não é mudar a crença principal, mas reinterpretar os fatos.
Por exemplo, por que uma empresa que cometeu um erro tão evidente demora anos pra admiti-lo?
Por que líderes políticos mantêm suas narrativas mesmo quando a realidade mudou?
O texto traz um exemplo muito bom sobre trotes pelos quais os calouros passam nas universidades.
O motivo de os estudantes continuarem perpetuando essa prática com seus calouros nos anos seguintes é o de que quanto maior o sofrimento para entrar em um grupo, maior a necessidade de acreditar que esse grupo é especial.
Caso contrário, a pessoa teria de admitir que passou por uma humilhação à toa.
Um trecho que me chamou bastante atenção diz que, ainda que a pessoa ache que lembra tudo de forma perfeita, na realidade está recriando essas lembranças sem perceber.
Ou seja, nossa memória não é um arquivo exato, mas sim uma reconstrução que ocorre o tempo todo.
Esse detalhe, pra quem lida com decisões financeiras, deveria ser levado muito a sério.
No mercado, a gente adora dizer que sabia que algo ia acontecer, que os sinais estavam presentes e que a ideia era clara.
Mas, sem um registro real do que pensávamos, é fácil ajeitar o passado para que pareça mais confortável.
É o famoso “profeta do passado”.
Quando alguém investe, não está apenas comprando um ativo.
Está mostrando uma visão de mundo, dizendo pra si mesmo que entende o risco, que confia na estratégia e que a decisão está alinhada com a forma como enxerga o cenário.
Enquanto os fatos confirmam essa ideia, tudo vai bem.
A convicção só cresce.
O histórico de acertos se torna combustível pra decisões futuras.
O problema surge quando a realidade revela algo diferente.
Reconhecer que a ideia falhou é admitir que a leitura foi incompleta, que o risco foi subestimado ou que o cenário mudou inesperadamente, e isso mexe com a nossa identidade.
Investidores que construíram patrimônio por décadas não se percebem como imprudentes.
Empresários que cresceram tomando decisões ousadas não consideram que agem com descuido.
Profissionais que lideram equipes e assumem metas ambiciosas demais a ponto de serem inalcançáveis não se veem como inconsequentes.
Quando uma decisão sai errada, a mente tenta proteger a imagem que a pessoa tem de si mesma, e aí entram as justificativas.
O evento foi incomum.
O cenário era imprevisível.
É só um barulho passageiro.
O mercado ainda não percebeu o que está acontecendo.
Por vezes, essas explicações são verdadeiras; outras, são apenas formas de aliviar a pressão interna, de pegar leve consigo mesmo.
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Mas o texto fala de algo ainda mais preocupante, que é quando as pessoas veem provas que vão contra suas crenças e mesmo assim acabam criticando, distorcendo ou ignorando essas evidências pra manter o que já pensavam.
Isso acontece na política, na religião e em grupos sociais.
E acontece com força nos investimentos.
Quanto mais tempo alguém defende uma ideia, mais difícil é desistir dela.
Isso ocorre não porque os números impeçam de mudar de opinião, mas porque largar a ideia parece abrir mão de parte da própria coerência.
O exemplo do trote ajuda a entender isso.
Alguém que passou por um sufoco pra entrar num grupo, precisa acreditar que esse grupo vale a pena.
Caso contrário, teria que admitir que sofreu à toa.
Agora, pense nisso em relação ao mercado.
Se investi tempo, dinheiro, reputação e crença numa estratégia, admitir que ela não funciona mais é reconhecer que errei e que parte desse esforço foi desperdiçado.
A mente prefere insistir ainda mais.
Por isso, a expressão “erros foram cometidos” funciona bem, pois reconhece o problema sem apontar diretamente quem tomou a decisão.
Mas, na vida real, toda decisão foi tomada por alguém.
A maturidade estratégica está mais em diminuir o tempo entre o erro e o momento de admiti-lo do que em acertar sempre.
Não é questão de insegurança constante.
Trata-se de criar formas de evitar o autoengano: anotar as premissas, aceitar opiniões contrárias e separar quem somos da estratégia adotada.
O mercado muda, o cenário se transforma e as variáveis evoluem.
O que costuma ficar muito rígido é a história que contamos pra nós mesmos.
Ainda não li o livro que inspirou esse artigo, mas o título já me tirou da zona de conforto, desmontando muitas de minhas desculpas internas.
Depois de ler a resenha, pedi meu exemplar.
Quero entender melhor como a dissonância cognitiva funciona nas decisões que realmente importam, especialmente as que envolvem dinheiro, liderança e poder.
Se você também curte entender o que acontece na nossa mente quando erramos, deixo aqui o livro que gerou essa reflexão.
Fica como dica para quem quer se aprofundar no assunto:
Antes mesmo de começar a ler, que tal fazer um exercício simples?
Na próxima vez que você precisar tomar uma decisão importante, pergunte a si mesmo se toparia mudar de ideia caso as informações mudassem.
Isso porque, se há alguém fácil de enganar, esse alguém é você mesmo.
Por isso, ficar atento não é só uma escolha, mas uma estratégia inteligente.
Até a próxima,
Gus
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