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O novo normal que nunca existiu
Vida & Lucros | Edição #085
Em março de 2020, as ruas estavam vazias.
Lembro de atravessar o centro de Curitiba e ouvir o som dos próprios passos.
Nenhum carro, nenhuma conversa, nenhum ruído de cidade viva.
Só o barulho do vento batendo nos prédios, e aquele silêncio que parecia prenúncio do fim do mundo.
Os jornais falavam de “um novo normal”.
Diziam que nada voltaria a ser como antes.
Que trabalharíamos de casa para sempre.
Que o mundo seria mais solidário, que as empresas seriam mais humanas, que o dinheiro deixaria de ser o centro.
Mas o tempo passou.
E olhando de onde estamos agora, 2025, talvez o mais honesto seja admitir que boa parte desse “novo normal” nunca existiu de fato.
Foi um espasmo coletivo de medo, esperança e desespero.
O que realmente ficou não foi a utopia de um mundo melhor, mas o aprendizado de que a vida é cíclica, frágil e imprevisível.
Durante a pandemia, as pessoas correram para a bolsa.
Investir virou moda, como se bastasse ter uma conta digital e um pouco de coragem para multiplicar o dinheiro.
Era o auge dos juros baixos, o “juros zero pra sempre”, e todo mundo jurava que o Brasil finalmente seria um país de investidores.
A euforia durou pouco.
Em menos de dois anos, o Ibovespa despencou, os fundos arrojados evaporaram, e boa parte daquelas carteiras digitais virou pó.
O novo normal financeiro ensinou a velha lição de que rentabilidade é filha da paciência, não da pressa.
No trabalho, a revolução prometida também não veio.
O home office integral parecia libertador, até que se tornou um cárcere.
Descobrimos que o escritório, por mais imperfeito que seja, também é convivência, troca e ritmo.
As empresas voltaram a chamar as pessoas para perto, e os profissionais voltaram a buscar propósito no que fazem.
No fim, a pandemia não reinventou o trabalho.
Ela apenas acelerou a consciência de que trabalhar demais, sem propósito, é uma forma moderna de morrer devagar.
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No setor de negócios, a onda das startups e valuations irreais foi outro mito do novo normal.
Investimentos foram realizados com base em narrativas.
Muitas dessas empresas nem existem mais.
O mercado voltou a valorizar resultado, gestão e consistência.
O “novo normal” chegou ao fim; o velho capitalismo, baseado em lucro e disciplina, permanece.
Mas algumas mudanças foram concretas.
A relação com o dinheiro mudou.
A pandemia ressaltou a importância de reservas financeiras.
Famílias ricas e empresários também sentiram o impacto.
Quem tinha liquidez enfrentou a crise com tranquilidade.
Quem não tinha, precisou aprender a importância da segurança financeira.
Desde então, nota-se maior foco em previsibilidade do que rentabilidade a qualquer custo.
Menos busca por riscos, mais respeito pelo tempo.
O investidor amadureceu.
Investir deixou de ser apenas ambição e virou necessidade.
Dinheiro parado representa medo; investir sem critério, ignorância.
Famílias com grandes patrimônios hoje adotam práticas simples: caixa sólido, diversificação, horizonte longo e estrutura consistente.
A pandemia educou uma geração inteira de investidores.
O objetivo é manter-se de pé em qualquer crise, não apenas acumular ganhos.
O ESG também foi apenas tendência durante o novo normal.
Muitas empresas adotaram medidas superficiais.
Com o tempo, o mercado passou a valorizar práticas concretas de sustentabilidade, governança e impacto.
O ESG de marketing foi descartado.
O desejo de um mundo melhor não alterou agendas lotadas; apenas tornou as escolhas mais criteriosas.
As lições principais: liberdade está no propósito, liquidez garante tranquilidade e riqueza é o que permanece diante de crises.
O novo normal não está na tecnologia ou nos indicadores, mas na maturidade.
É preciso adaptar-se independentemente das mudanças externas.
A normalidade nunca existiu.
Sempre houve um equilíbrio instável entre controle e adaptação.
A pandemia evidenciou essa realidade.
O investidor que atravessou esses anos está mais preparado pelo entendimento de que a estrutura (não o lucro) é prioritária.
O mundo mudou menos do que se previa, mas mudamos internamente e isso foi suficiente.
O “novo normal” relevante é o que ocorre dentro da gente: novas visões sobre tempo, trabalho, finanças e vida.
O resto é ruído.
O silêncio das ruas acabou, mas as lições permanecem para quem está atento.
Até a próxima,
Gus
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